quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Detesto o frio que chegou, a chuva que teima em cair, os dias curtos, os casacos e camisolas sobre mim, as multidões que se aprestam para encher todas as lojas.
Detesto a neve que muitos veneram, excepto pela sua elevada candura, e vista do lado quente de cá. E a cara fria quando nos beijamos? Então o nariz, esse, sempre frio! E as nádegas! Estranho mas estão sempre frias sem que o sintas. Gosto de enfiar as mãos pelas tuas calças e senti-las frias enquanto o teu corpo queima.
Desliga o aquecimento, corre depressa e protege-te entre o edredon. Já salto também. Corpo a corpo, lenha com lenha, vamos acender esta lareira até ao Natal.

sábado, 7 de Novembro de 2009

GROW, GROW UP


Evelina Oliveira

Saltava as pedras de granito que bordejavam os passeios da calçada. O desafio era nunca calcar as divisórias. E o que era muito difícil, vinha-se tornando cada vez mais fácil. Bastava esticar bem as pernas esguias, alhear-se dos velhos que abalroava, contornar os postes que só estorvavam, e sentia-se grande, cada vez maior, como um eucalipto que sonhava alcançar.



Naquele dia, a compasso, sem parar, foi saltitando como se voasse de flor em flor, leve, com o ruído do esforço da passada de uma atleta, até que…”que estranho!”, o passeio acabava ali. Não fazia esquina para outra rua como sempre, não arredondava a sua continuidade! Aliás, olhando para todo o lado, reparou que tudo acabava ali porque todo o resto se tinha esfumado no meio de uma neblina densa que só a deixava ver o passeio e o seu final.


Foi então que reparou numa velha porta entreaberta. Talvez o passeio continuasse do outro lado. Empurrou-a, pesada, e entrou.
 Os holofotes acenderam-se e vislumbrou um mar de gente que rodopiava num frenesim intenso. Alguém lhe atirou um molho de roupa e um grito:”Apressa-te. Veste-te. Entras dentro de cinco minutos.”Ia ser a sua estreia na vida adulta.


Acho que o "Fear Theme" dos  Chinematic Orchestra que ouvem em fundo ilustra bem o movimento do texto.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

O Arnaldo Antunes editou um novo trabalho que deve estar a chegar a Portugal. Tem sido a minha companhia nas longas viagens de automóvel. Eu que também venho de longe, tive de escolher mostrar-vos esta canção que nem é das melhores do álbum, mas é o único videoclip disponível.
O A.A. continua a fazer das palavras mais simples, letras fantásticas que preenchem melodias primorosas. Eu gosto e recomendo. Um excelente  fim-de-semana para vós. Eu ameaço voltar amanhã com uma estória.


terça-feira, 27 de Outubro de 2009

A MAIOR PARTE DAS COISAS QUE ME ENCANTAM SÃO REDONDAS(?)


       Alfredo da Luz


"A maior parte das coisas que me encantam são redondas."..."Tenho a certeza que a nossa vida seria muito mais interessante e gratificante se fosse redonda ou, pelo menos, se algumas coisas passassem a ser redondas. Se as esquinas fossem redondas, duas pessoas caminhando em direcções opostas não chocariam, mas passariam suavemente uma pela outra. Se os cantos das mesas fossem redondos, as crianças não magoavam a cabeça. Se as conversas fossem redondas, todas as palavras seriam suaves. Para mim, a vida não devia ter rectas intermináveis, declives assustadores, ângulos rectos ou linhas intermitentes. Para mim, a vida devia ser redonda."


As palavras não são minhas. Descobri-as aqui.
 São da M.J.M., uma notável psicóloga que muito bem conheço. Aliás, a mais valiosa de todas as psicólogas (e há tão poucas/os assim!). Para além disso, é um anjo de pessoa e uma combatente da adversidade.  Sei que, por ter de ficar uma longa temporada em casa,doente, decidiu dedicar-se mais ao artesanato. Afoga aí as suas mágoas e saudades do trabalho, dos colegas, dos pacientes. Ela é das raras pessoas que sabe que este comboio é conduzido por mim. Daí se ter lembrado de criar também o seu blogue que vos venho recomendar vivamente. Poderão lá encontrar peças de bom gosto, técnica apurada, e textos como este.


Já agora, a mim nem sempre as coisas que me encantam são redondas, mas a ideia de evitamento do conflito, da harmonia, é humanista, sim senhor. Quando era criança, fazia constantemente movimentos circulares à volta da chupeta. Ainda hoje, os movimentos circulares me relaxam quando estou stressado.
Pena é que quando andamos em círculo voltemos sempre ao ponto de partida. A  menos que paremos pelo caminho e por lá fiquemos, claro.


A Música de fundo que escolhi é de um CD acabadinho de chegar da FNAC: Jacinta canta "I Wish I knew how It Would Feel To Be Free"

sábado, 24 de Outubro de 2009

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

JÁ TEMOS GOVERNO


A Educação, com Isabel Alçada, vai ser "Uma aventura..."



O Ensino Superior continuará Gago.


Mas a Cultura, sim a Cultura, a tal que Sócrates confessa ter desmazelado no anterior governo, ganhou uma mulher linda como esta: Gabriela Canavilhas. Agora é que vai ser, ao som desta pianista.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

OBRIGADO
























Recebi hoje, pelo correio, este mimo.  A  rapariga dos postais, uma espécie de fada madrinha, resolveu, mais uma vez, presentear-me com uma das suas obras. Ela desenha, picando em cruz, palavras  aparentemente desnecessárias(diz ela) que não fazem mais do que realçar particularidades de grandes imagens . Um trabalho excelente que conheci aqui na blogosfera e que aconselho todos a visitar frequentemente como eu faço.  OBRIGADO.

a música é de Cat Power num tradicional "Amazing grace"

sábado, 17 de Outubro de 2009

OS HOMENS SÃO TODOS IGUAIS (ou como podia ter continuado o post anterior)



Virou-se para o lado de fora do leito e tapou a cabeça com a almofada para se proteger da luz invasora.  O sono é um barco à deriva e este baloiçava  perto da costa. Os últimos restos dos sonhos arrumavam-se sob o som longínquo da rebentação e ela arribava já. Sabia que quando se virasse ele estaria lá, ao seu lado. Que havia de fazer ao amor que já não sentia? Como havia de reagir a toda a ternura e à investida que ele tinha sempre preparada ao acordar?



Durante dias, semanas, tinha embarcado por paixão em tempestuosas ondas que ela própria insaciável reacendia. Mas o fascínio do mar, pensava, é ter sempre as ondas reinventadas no afecto com que se batem. A antevisão do afecto sólito tinha-a fartado. Quem lhe dera que ele já tivesse partido para sempre! Que arranjasse outra rápido…


Foi então que se virou para dentro à descoberta  e abriu os olhos ainda estonteada . Ele já se tinha levantado? Tentou ouvir o ruído da água a correr no chuveiro mas o silêncio confundiu-a. Levantou a cabeça e olhou para o tampo da cómoda onde ele insistia em pôr a roupa mas este estava vazio. Aportou então definitivamente estremunhada. Sentou-se e chamou: -Jorge – mas não veio resposta. Levantou-se e ainda húmida dele chamou-o por todo o lado.


Parou na cozinha: “Que estupidez! Por que foi embora? Terá acontecido alguma coisa?!”
Reparou então num pos-it na máquina do café “ACABOU!”. Encostou o corpo frio e nu na banca e releu num turbilhão de mar aceso o recado. Mas porquê? Que lhe passou pela ideia? Arranjou outra, de certeza. E dizia ele que me amava! Os homens são mesmo todos iguais!!!


A música de fundo é de Tom Waits (eu sei que insisto muito nele)  "I beg your pardon".


segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

DE MANHÃ ACABA O DIA



Chamou-a devagarinho:
- São horas, acorda.

Beijou-lhe a face, os olhos, devagarinho.
Passou-lhe a língua pelo exterior do lóbulo e a mão pelas coxas, à espera de um arrepio. Ela permanecia inerte, embora ele sentisse a sua respiração.
Tinham adormecido  tão apaixonados e ela, agora, já não acordava!
Arrumou a sua roupa, os livros, os CDs, pôs a mochila às costas e soltou-lhe um último olhar. Mandou-lhe um beijo a voar por dois dedos esticados, e partiu.
Sentia que tinha deixado de ser o príncipe capaz de a acordar para a vida.
Outro a acordaria.

(Quando a paixão acaba já ninguém acorda com um beijo, o que é uma pena!)

domingo, 11 de Outubro de 2009

AINDA BEM QUE CONTINUO A SURPREENDER-ME


Ontem foi Dia Mundial da Saúde Mental.
A este propósito, levaram-me ao Museu Soares dos Reis para ver o espectáculo "Diga-me você o que é", produzido pelo Serviço de Reabilitação do Hospital Psiquiátrico Magalhães Lemos, com representação e música dos seus doentes.

A construção cénica obedeceu a  uma estrututa de 12 quadros/situações que reflectem 12 mitos que alimentam o estigma destes doentes:
1. Os doentes mentais são loucos;
2. Os doentes mentais podem contagiar os que os rodeiam com a sua doença;
3. Os doentes mentais são incapazes de tomar decisões;
4. Todos os doentes mentais foram maltratados na infância;
5. Os doentes mentais são perigosos e violentos e por isso devemos fugir deles;
6. Os doentes mentais são incapazes de trabalhar;
7. Os doentes mentais deviam estar fechados em hospitais;
8. Os doentes mentais não podem ter esperança;
9. Os doentes mentais são anti-sociais;
10. Os doentes mentais são vítimas de bruxarias efeitiços;
11. Os doentes mentais são atrasados mentais;
12. Os doentes mentais são imprevisíveis

O que vale são as surpresas que os dias nos dão. A interpretação de todos, incluindo doentes com psicoses graves, incluindo um internado, foi perfeita. Só por isso valeu a pena sair de casa no sábado. Diria que este espectáculo, para minha surpresa, é digno de ser apresentado nos melhores palcos. E a música que dele faz parte e que aqui reproduzo, é da autoria dos próprios actores/doentes, com a colaboração da Casa da Música através do Projecto Digitopia.

Depois do espectáculo a que assistiu mais de uma centena de pessoas, a pergunta que ficou no ar era onde estava a loucura. Parabéns a todos. Têm de representar em outros lugares e... em breve.

A música de fundo deste post foi composta pelo Noé e pelo Rui e chama-se "Imprevisíveis". Podia ser profissional mas não é.