Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

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Domingo, 21 de Junho de 2009

LES POUPÉES RUSSES

Hoje lembrei-me deste filme.
É que as relações são mesmo como as bonecas russas. Nunca sabemos se a que temos na mão é a última. Só depois de a abrir e de aceitar que essa pode não ser a mais perfeita mas a melhor.

Para ver ao som de uma deliciosa Beth Gibbons.

Sábado, 20 de Junho de 2009

ESTRELA-DO-MAR



Ontem fui à praia e conheci uma estrela-do-mar.
Contou-me que tinha sido uma estrela cadente que gostava de rasgar o céu.

Disse-me que as estrelas cadentes são estrelas pequeninas a voar a caminho da escola onde aprendem a dar luz; que às vezes, no meio da brincadeira, algumas se distraem e caem na Terra. Foi o que lhe aconteceu.

Fiquei a saber que o mar existe porque, de tanto chorarem as estrelas com saudades do céu, inundam a terra de lágrimas salgadas. São elas que gritam espuma branca na areia e são elas também que fazem as ondas porque revolvem a água ao tentar levantar voo e voar.

À noite, os pais espreitam-nas lá do alto sem nada poderem fazer para as resgatar para o seu calor. Mas cintilam-lhes beijos que julgamos ser para nós.

Prometi-lhe que ia construir um foguetão para a levar de volta até ao céu.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

LÁ NO ALTO

James Jean

As mãos duras e calejadas içaram-lhe o corpo num movimento final até se erguer totalmente. Inspirou todo aquele ar virgem como um troféu e deteve-se a rodar por completo o olhar a admirar tudo o que se avistava daquele ponto tão alto e que já há muito almejava alcançar. O suor alterava-lhe as feições marcadas pelo sol. Sentia-se Deus a admirar com superioridade o mundo que acabava lá muito ao fundo num manto de névoa longínqua. As cores verde e castanha imperavam num imenso rol de campos onde o cinzento granítico acentuava as divisórias em parcelas individuais e o vermelho descolorido das telhas sinalizava casebres de paredes descaiadas de gente pobre.

O seu olhar deteve-se numa estrada estreita, em terra, de que vislumbrava o serpentear. Um carro ia torneando aquelas curvas e contra curvas apertadas como se duma mão em corpo de mulher se tratasse. Atrás de si deixava uma imensa nuvem de pó seco de Verão. Lá no alto, de tão longe, o silêncio dominava. O Céu é assustadoramente silencioso de tão habituados que estamos aos barulhos da Terra. E ele sentia-se no Céu, bem perto do sol que cada vez o molhava mais e mais de suor. Foi o grito agudo de uma águia em voo próximo que quebrou o silêncio. Anunciava a chegada ao ninho às suas crias. Ele ficou a admirar-lhe o voo planante de bailarina. Se estivesse no Céu aquilo seria um anjo.

Quando voltou a observar a estrada, o carro pouco caminho parecia ter galgado e tentou adivinhar-lhe o destino. Talvez aquela gente que seguia lá dentro procurasse outro cenário diferente deste que ele dominava por completo.Reparou então que um bando de homens percorria, a pé, a estrada em sentido contrário. Naquele fim de tarde, regressavam, com certeza, do trabalho. Eram uns cinco ou seis. A visão não era nítida nos detalhes porque se passava mais longe do que a perfeição da vista humana permitia. Via que carregavam algo, talvez ferramentas agrícolas. Semicerrou os olhos num último esforço de visão. Deviam ser velhas sacholas e ancinhos que apoiavam no ombro como um regimento de soldados no regresso da frente de batalha. Mas pouco alinhados, seguiam dispersos gozando brincadeiras para enganar o cansaço e o calor.

De repente, viu-se dividido, lá no alto, a observar o movimento do carro e o daqueles homens. Um movimento que tendia a cruzar-se, sabe-se lá onde e que ele ia acompanhando curioso. E se com aquelas curvas tão apertadas, o condutor do carro se deparasse com aqueles homens ao virar de uma daquelas curvas no meio daquele arvoredo espesso? E se aqueles homens, distraídos com o seu próprio barulho, não ouvissem a aproximação do carro?
O suor ficou frio e ele até magicou que a águia o tinha vindo avisar do desastre iminente.Não esperou mais. Tão alto que estava, tão poderoso se sentia, estendeu o seu braço que se alongou até àquele carro. Com a mão, inverteu-lhe o sentido da marcha e este seguiu sem o seu condutor sequer se aperceber. Os homens, esses, não demoraram a chegar a casa, sãos e salvos como mereciam. Por hoje estava feito. Podia descer a montanha, antes que ficasse noite, e voltar à Terra.

(Por que razão Deus não faz o mesmo?)

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

UM POETA RECORDA-SE

Cala-te rouxinol
Deixa-me ouvir-te melhor

Ao crepúsculo
se desvenda
absurdamente,
tudo
o que o dia pleno
encobre.

pintura de António Carmo




RUMO


Ergue-se
do mundo
em mim o que sou.
Estou talvez só.
Mas com decisão
na dor o aceito.
Que importa o rumo
por que sigo
ser imperfeito?
Exacto e duro,
tudo procuro
compreender.Pensar é ir.
Ir é ser.


As palavras são todas de Armindo Rodrigues,que Saramago descreveu como "um poeta de rua, de lugar habitado, não um poeta urbano"

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

PROVOCAÇÃO



O teatro sempre foi e é uma das minhas paixões. No entanto, confesso que… muitas vezes fiquei/fico espantado com o deslumbramento com que as pessoas ficavam/am com peças onde a minha própria compreensão de actor, com muitas leituras do texto, não chego. Quando aplaudem de pé e nos enchem de felicitações no camarim, tantas vezes me pergunto: - “Mas o que viram de especial?!!Sou eu que sou estúpido?”Claro que muitas vezes concordei com esta hipótese mas também fui tendo a certeza que a maior parte delas não tinha reparado que o rei ia nu e outras já tinham constatado mas não o queriam admitir. Deixemo-nos de complexos intelectuais: muito do teatro que se faz dá um enorme prazer mas a quem o faz. É uma soberba catarse poder ser outra pessoa durante umas horas. Quando se regressa volta-se com um auto-conhecimento mais apurado . E, no dia seguinte, sabes que vais poder livrar-te novamente de ti o que te dá uma perspectiva muito optimista do que tens pela frente.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A RAZÃO DA CLANDESTINIDADE

pintura de Sarah Afonso

A porta abriu-se de imediato mal ele tocou à campainha. Ela recebeu-o de olhar maroto e mão estendida. Puxou-o para dentro e acenou-lhe que não fizesse barulho. Colocou a cabeça de fora, olhou em redor e fechou a porta devagarinho.

“- Nunca mais chegavas! Mas ainda bem que vieste. Sabes que temos de ser rápidos. Ele daqui a pouco está aí.”

“- Vamos já para o quarto?”

“- Não. Tem calma. Queres tomar um café?”

“- Mas não disseste que ele está a chegar?!”

“- Sim, mas para um café ainda temos tempo.” Olhou para o relógio da parede “A esta hora deve estar ainda em Coimbra e só daqui a uma hora estará cá. Temos muito tempo até lá.”

“- Há tanto tempo que estamos para fazer isto!” - lembrou ele.Ela pragmatizou a situação: “Ok, deixa o café. Vamos ao que interessa.” E dirigiram-se ao quarto.

Cama de casal desfeita, lençóis de cetim carmim que a luz do sol matizava de prata. Na cómoda, de tampo de mármore rosa, estavam os biblôs, duas fotografias do casal na praia e uma no momento do casamento - ela a pomba, toda de branco, e ele, o corvo, todo de negro.

Fecharam a porta, não fosse ele voltar e apanhá-los de surpresa. O que tinham de fazer era imperioso que fizessem rápido….…

O barulho ouviu-se na rua e invadiu a vizinhança. O senhor Lopes que dormia no andar de cima, depois do turno da noite, acordou furibundo e só a mulher o impediu de lhes bater à porta.O barulho durou meia hora até a calma voltar.

A porta do quarto abriu-se e ele saiu, a suar. A coisa não era para menos! Ela deu um toque no cabelo e apressou-o:

“- Obrigado, foste um querido, mas agora vai-te que ele está a chegar e ainda nos apanha aos dois.”

“- Achas que fiz bem?” – perguntou ele.

“- Bem? O máximo!” Abriu-lhe a porta – “Eu depois ligo-te. Adeus.” E ele saiu aos repelões.

Ela fechou a porta e correu para o quarto. Parou à porta. Olhou para dentro e horrorizou-se com a confusão: “-Meu Deus! Tenho que dar uma arranjadela a isto, antes que ele chegue”

Arranjou os lençóis, puxou o edredão e cobriu a cama. Foi buscar o aspirador e sugou todo o lixo do chão. Limpou o pó. Foi buscar o desodorizante do ar e encheu o quarto de um odor quente de canela, como gostava.

Olhou e lembrou-se de um último detalhe. Resolveu encher a cama de pétalas de rosas brancas que caíram como flocos de neve no edredão.

Agora tinha a certeza que estava tudo pronto.Ficou a admirar a obra feita. Aquele quarto estava um perfeito leito de amor. Hoje, que faziam dois anos que se tinham casado, havia de o receber louca na cama. E ele iria gostar da surpresa?

O quadro que tinha comprado na galeria compunha a parede da cabeceira com dois corpos entrelaçados numa imagem difusa. E o espelho amplo, em frente, enquadraria os seus corpos em poses semelhantes, que eles próprios iriam compondo nos momentos de paixão.O irmão tinha sido mesmo um querido em os ter colocado na parede! Só faltava tomar um duche e pôr-se suficientemente provocante para receber o seu maridinho.


( a diferença entre o equívoco e a surpresa é, por vezes, ténue)
Pois é, voltei a Sarah Afonso, esquecida por ser a companheira de Almada Negreiros e ter vivido ofuscada pela luz de um génio.
E resolvi não acrescentar nova música. A que se ouve em fundo de Tom Waits parece-me bem. Oxalá concordem comigo.

Domingo, 14 de Junho de 2009

THE WORLD KEEPS TUNNING

Fotografia de Sori Onisor

Aqueçam os projectores, verifiquem o som, a temperatura ambiente, o vestuário e os adereços. Amanhã, todas as luzes vão voltar a incidir sobre todos nós.
A semana é o nosso público e está aí para ficar.
"The world keeps tunning", canta o Tom Waits

Elisa Lucinda e Rubem Alves - A Poesia do Encontro

Eu sei que Fernando Pessoa celebraria ontem o seu aniversário (não me esqueço porque coincide com o meu).
Sei que ontem muita gente pelos blogues de todo o mundo português se referiu a ele.
Vou atrasado, eu sei. Mas aí vai algo que considero especial. Experimentem ver.

Sábado, 13 de Junho de 2009

O maquinista deste comboio fez anos e a estação encheu-se de gente que apitou chamadas de mil paragens. Os funcionários reuniram-se numa festa surpresa que me fez descarrilar num silêncio de emoções.
Lond live the train.