Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

MR. NOBODY

Era tempo de deitar que o cansaço era muito.
A rotina era a mesma de sempre. Lavou os dentes, a cara, olhou-se ao espelho, não gostou do que viu, conformou-se, urinou, não se esqueceu de levantar antes a tampa e de a baixar depois, foi para o quarto, olhou para ela, já suspirava, voltou a olhar-se no espelho por cima da cómoda, voltou a não gostar do que via, foi começando a tirar uma a uma as peças de roupa que tinha carregado todo o dia, o casaco, a camisa, olhou o seu tronco, não estou tão mal assim, as meias, as calças, as cuecas. Estava nu quando resolveu dar a última olhada para se ver. Estranhou não se ver refletido. Não era ninguém? 

Virou-se de costas, mas quais costas se nada se via?! Olhou agora diretamente  o seu corpo e mais uma vez nada viu, tateou-se mas nada sentiu, só a mão, tinha mão, uma mão apenas. Raios, o que se passa? Não existo, não sou ninguém. Olhou-a, ela estava a dormir mas precisava que alguém lhe confirmasse que existia. Aproximou-se, acordou-a devagarinho acariciando-lhe a cara com a mão. Ela mexeu-se devagarinho, sem abrir os olhos tocou-o, acariciou-o e suspirou: Não sei o que seria de mim se tu não existisses! Ele tremeu, olhou novamente o espelho e suspirou, lá estava a sua imagem a copiar-lhe os movimentos de pose que repetiu. Existo.


2 comentários:

AN disse...

Inteligente forma de dizer que dificilmente existe, plenamente, alguém que está só.Existimos porque um outro nos toca, cheira, escuta... quando a nossa existência é condição da existência do outro.Relaciono-me, logo existo.

cores e outros amores disse...

Nós somos, existimos...