Anita já não faz anos, não vai às compras, já não vai à praia. As suas roupas já não são bonitas de menina cuidada. Anda pelas ruas, diz "estou grávida pelas costas" e deixa uns tantos com ar de troça e a desafiá-la perguntando-lhe por onde vai sair a criança - há sempre um grupo destes que ao troçar dos outros pensa obter um atestado de sanidade.
O cartão que fazia as capas duras dos seus livros de ilustrações coloridas e desenhos tipo “olha , está cá tudo”, procura-o ela agora para acolher os seus ossos e os cobrir durante a noite.
Parece que é avó mas diz que não tem a certeza. "Não sou maluca", berra a quem a olha com um sorriso. “Sou muito fora, só isso”. Os cabelos não têm o alinho com que saía do cabeleireiro antes de ouvir uma marcha militar no gira-discos – e quem se lembraria de aos oito anos ouvir uma marcha militar?! E no entanto quando fez anos, eu lembro-me de ter espiado no seu livro que ela e os amigos ouviram uma.
Anda com um rádio pequeno encostado ao ouvido, que solta com esforço alguns balidos agudos. Se calha de ouvir uma voz vinda de dentro, do rádio que é dentro dela, a interromper-lhe aquela música, muda de estação rapidamente - que eles lá dentro não querem que ela ouça música só porque não tem casa. Pois não, mas já teve uma e grande, e foi estrela da literatura. Já foi rica mas um dia o Pantufa comeu-lhe o dinheiro todo e morreu. Porque o dinheiro é indigesto? pensei eu. “Sabe, a tinta das notas é venenosa para as pessoas não as comerem. Eu nunca comi nenhuma mas um dia disseram-me.” E quem? “Não me lembro mas você nem sabe o que eu gozei quando era uma gaiata! Leu algum dos meus livros? Ah você é homem, os meus livros eram para as meninas e você não me parece assim p’ro….” - riu com um misto de graçola e de respeito que a minha inflexibilidade facial supostamente lhe impôs”… bem nunca se sabe! Você havia de me ver nessa altura! Não era por ser eu mas eu era uma estampa. Todas as miúdas que passavam por mim, nas livrarias ou em casa, sonhavam ser assim fixes como eu era.”
Encostei-me a ouvi-la no alçado do prédio e esta Anita continuava a cheirar a papel mas sem o encanto do aroma quente de um livro a estrear. Era o cheiro do cartão molhado das noites com um toque profundo de cerveja no entusiasmo perdido das suas palavras sonoras. Estava magra, descuidada no modo como expunha todas as suas entranhas e a boca era um mar de cáries e buracos sibilantes. Ela estava em sua casa. Era ali, mesmo à porta do meu prédio e tinha acabado de se mudar. Era ali que iria nascer a sua criança pelas costas - como se as costas fossem o passado feliz que queria reproduzir. Acabei o cigarro, eu que não fumava há sei lá. Tive de me decidir: “Olhe, dá-me licença, acho que me vou deitar.” Ela permitiu que eu passasse por cima da sua cama e entrasse na minha casa. “Até amanhã.” “Fique descansado, ninguém lhe entra em casa, que eu não deixo.
Eu subi e ao deitar-me dei comigo a perguntar: O que será feito dos Cinco?

3 comentários:
A Anita não a vejo há muitos anos, mas os cinco, garanto-te que estão aqui na minha estante, mesmo ao lado do Asterix.
Gostei. Sempre grávido de imaginação!
Olá Combóio muito turbulento
A Anita, também entrou em minha casa. Não foi muito desejada, mas as pessoas ofereciam os livros às minhas filhas, que elas aborreciam.
Li-lhes outros livros. Um ainda hoje elas recordam com muita alegria, que foi A Escola do Paraíso do José Rodrigues Miguéis.Eu até lhes li O Valente Soldado Chveik. Em África havia todo o tempo do mundo.
Bom fim de semana.
Abraço de Lisboa.
Isabel
O José Rodrigues Miguéis é um dos meus autores favoritos. Li TUDO dele. Gosto especialmente do Conto "Saudades de Dona Genciana" do "Leah e outras histórias".Fico contente por esse gosto em vossa casa.
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