segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A RAZÃO DA CLANDESTINIDADE

pintura de Sarah Afonso

A porta abriu-se de imediato mal ele tocou à campainha. Ela recebeu-o de olhar maroto e mão estendida. Puxou-o para dentro e acenou-lhe que não fizesse barulho. Colocou a cabeça de fora, olhou em redor e fechou a porta devagarinho.

“- Nunca mais chegavas! Mas ainda bem que vieste. Sabes que temos de ser rápidos. Ele daqui a pouco está aí.”

“- Vamos já para o quarto?”

“- Não. Tem calma. Queres tomar um café?”

“- Mas não disseste que ele está a chegar?!”

“- Sim, mas para um café ainda temos tempo.” Olhou para o relógio da parede “A esta hora deve estar ainda em Coimbra e só daqui a uma hora estará cá. Temos muito tempo até lá.”

“- Há tanto tempo que estamos para fazer isto!” - lembrou ele.Ela pragmatizou a situação: “Ok, deixa o café. Vamos ao que interessa.” E dirigiram-se ao quarto.

Cama de casal desfeita, lençóis de cetim carmim que a luz do sol matizava de prata. Na cómoda, de tampo de mármore rosa, estavam os biblôs, duas fotografias do casal na praia e uma no momento do casamento - ela a pomba, toda de branco, e ele, o corvo, todo de negro.

Fecharam a porta, não fosse ele voltar e apanhá-los de surpresa. O que tinham de fazer era imperioso que fizessem rápido….…

O barulho ouviu-se na rua e invadiu a vizinhança. O senhor Lopes que dormia no andar de cima, depois do turno da noite, acordou furibundo e só a mulher o impediu de lhes bater à porta.O barulho durou meia hora até a calma voltar.

A porta do quarto abriu-se e ele saiu, a suar. A coisa não era para menos! Ela deu um toque no cabelo e apressou-o:

“- Obrigado, foste um querido, mas agora vai-te que ele está a chegar e ainda nos apanha aos dois.”

“- Achas que fiz bem?” – perguntou ele.

“- Bem? O máximo!” Abriu-lhe a porta – “Eu depois ligo-te. Adeus.” E ele saiu aos repelões.

Ela fechou a porta e correu para o quarto. Parou à porta. Olhou para dentro e horrorizou-se com a confusão: “-Meu Deus! Tenho que dar uma arranjadela a isto, antes que ele chegue”

Arranjou os lençóis, puxou o edredão e cobriu a cama. Foi buscar o aspirador e sugou todo o lixo do chão. Limpou o pó. Foi buscar o desodorizante do ar e encheu o quarto de um odor quente de canela, como gostava.

Olhou e lembrou-se de um último detalhe. Resolveu encher a cama de pétalas de rosas brancas que caíram como flocos de neve no edredão.

Agora tinha a certeza que estava tudo pronto.Ficou a admirar a obra feita. Aquele quarto estava um perfeito leito de amor. Hoje, que faziam dois anos que se tinham casado, havia de o receber louca na cama. E ele iria gostar da surpresa?

O quadro que tinha comprado na galeria compunha a parede da cabeceira com dois corpos entrelaçados numa imagem difusa. E o espelho amplo, em frente, enquadraria os seus corpos em poses semelhantes, que eles próprios iriam compondo nos momentos de paixão.O irmão tinha sido mesmo um querido em os ter colocado na parede! Só faltava tomar um duche e pôr-se suficientemente provocante para receber o seu maridinho.


( a diferença entre o equívoco e a surpresa é, por vezes, ténue)
Pois é, voltei a Sarah Afonso, esquecida por ser a companheira de Almada Negreiros e ter vivido ofuscada pela luz de um génio.
E resolvi não acrescentar nova música. A que se ouve em fundo de Tom Waits parece-me bem. Oxalá concordem comigo.

5 comentários:

curse of millhaven disse...

:) essa pintura é deliciosa. tb gostei do texto!

Bipede Implume disse...

Um conto delicioso.
Com alguns dias de atraso... muitos parabéns, muitas felicidades, muitos anos de vida.
A tua música está sempre bem.
Beijinhos.
Isabel

Marisa disse...

Parabéns? Supondo que isto não é um equívoco, dou-te os meus parabéns também!
Quanto ao texto, eu estava à espera de um final assim, não fui maliciosa na leitura mas isso é porque achei que um conto do tipo "facadinha no matrimónio" não fazia o teu género e, ainda que decidisses contar uma história dessas não o farias desta maneira tão "óbvia". Não me equivoquei, ainda bem!

jj disse...

Então, li isto esta manhã mas não comentei porque me disse demasiado. Desconhecia a existência da Sarah Afonso e afinidade com Almada Negreiros.

Culpa minha que desconheço muita coisa. Culpa do A N que era génio. Culpa do génio que o A N não escolheu ser assim. :)))

Este teu post lembrou-me uma conversa difícil sobre outras metades em que fiquei a aprender que o Roland Barthes, por exemplo, nunca deixou de viver com a mãe porque, segundo o próprio, transparecia-se perante o seu génio.

Jinhos.

P.S. TOM WAITS sempre bem!

nadir disse...

Texto tão giro kim e que me fez sorrir, nem imaginas! Há mais de 30 anos aconteceu comigo uma "surpresa" destas mas que por muito pouco, não foi um grande equivoco; é que resolvi por altura dos anos do meu marido oferecer-lhe um cachorrinho – basset hount – raça que ele adorava, e pedi a um amigo nosso que tratasse do assunto pois eu sabia que ele conhecia um criador. Bom, tantas vezes falámos baixinho ao telefone e outras tantas, ele foi ter comigo ao emprego, que acabei por ter em casa um inquérito aguerrido sobre a suposta "traição" que eu andaria a cometer! No fim ficou tudo bem e o Fred, assim se veio a chamar o cachorro, foi a prova viva (e que viva!) de que eu afinal, era uma esposa fiel. Eheheh


beijo

m.m.